Análise dos terrenos movediços: Modelos de inclusão em debate

MODELO DE LETRAMENTO DIGITAL: ANÁLISE DE TERRENOS MOVEDIÇOS

Clevi Elena Rapkiewicz 1, Cristiani de Oliveira Dias 2 1 Colégio de Aplicação UFRGS (BRASIL) 2Programa de Doutorado em Informática na Educação - UFRGS (BRASIL)

Abstract. Based on literature review on the concept of digital literacy of the author Warschauer, we discussed the emergence of the concept of digital literacy as a necessity for the delimitation of research in digital inclusion in schools. Keywords: Digital Literacy, IT in education, Digital Inclusion.

Resumo. Com base em revisão bibliográfica sobre o conceito de letramento digital do autor Warschauer, discutimos a emergência do conceito de letramento digital como uma necessidade para a delimitação de pesquisas em inclusão digital no âmbito escolar. Keywords: Letramento Digital, Informática na educação, Inclusão digital.

1. Letramento e seus conceitos Segundo o autor [1] “a palavra letramento não está no dicionário Aurélio. O letrado de que falamos aqui não é só o indivíduo culto, mas também aquele indivíduo que domina poucos recursos da língua escrita. Para alguns pesquisadores, até mesmo uma pessoa analfabeta (isto é, que não domina as técnicas de ler e escrever) pode ser letrada se conviver em meios e em uma sociedade em que a escrita faça parte do cotidiano”. De acordo com [2] no Brasil, o conceito de letramento passou da simples verificação da habilidade de codificar e decodificar o nome à verificação da capacidade de usar a leitura e a escrita para uma prática social. Em contrapartida, nos países desenvolvidos, o que interessa é a avaliação do nível de letramento da população e não o índice de alfabetização. O que ela justifica é que nos países desenvolvidos se identificam para fins censitários o índice de pessoas que não incorporaram os usos da escrita, não se apropriaram plenamente das práticas sociais de leitura e de escrita. Dessa forma, não estão se referindo a índices de alfabetização, mas a níveis de letramento. Enfim, um indivíduo pode não saber ler nem escrever, isto é, ser analfabeto, mas ser, de certa forma, letrado. Segundo Warschauer [3] existem semelhanças entre letramento e acesso à TIC. Primeiro porque estão ligados aos avanços da comunicação humana e aos meios de produção do conhecimento. Segundo porque “assim como acesso à TIC é pré-requisito para a plena participação no estágio informacional do capitalismo, o letramento continua sendo pré-requisito para participação nos primeiros estágios do capitalismo (pg.64/65) ”. Em terceiro lugar, o autor menciona que tanto o acesso à TIC quanto o letramento necessitam de uma conexão física, um artefato, seja um computador ou um livro. Em quarto lugar, ambos envolvem receber informações e também produzir informações. Tabela 1: Letramento e acesso à TIC (Warschauer, 2006 pg. 65 atualizado pelas autoras, 2015) [3] Letramento Acesso à TIC Estágio da Comunicação Escrita, impressão Comunicação mediada por computador, smartphones e tablets. Era econômica Capitalismo, industrial Capitalismo informacional Artefatos físico Livros, revistas, jornais, publicações Computador, smartphones e tablets. Organização do conteúdo Romances, contos, ensaios, artigos, relatórios, poemas, formulários Websites, correio eletrônico, mensagens instantâneas via internet e via smartphones, redes sociais, jornalismo autônomo, tuítes. Habilidades receptivas Leitura Leitura e interpretação de multimídia, busca e navegação. Habilidades produtivas Escrita Escrita e autoria e edição de multimídia. Compartilhamento de conteúdo e autoria em conteúdos colaborativos.

Esse letramento e acesso à TIC mencionado pelo autor leva em consideração que suas práticas são associadas aos contextos histórico, social e político no qual estão inseridos. Significa que suas características poderão mudar com tempo e local em que estão inseridos. No contexto da escrita desse livro por este autor, a utilização do computador era única forma de participação e acesso à tecnologia, hoje em dia vemos uma maior utilização de smartphones sendo que 992. Inclusão social e perspectivas tecnológicas A convergência de base tecnológica, a dinâmica da indústria e o crescimento da internet constituem a sociedade de informação. Considera-se também, a possibilidade de processamento de qualquer tipo de informação no formato digital, a contínua queda dos preços dos computadores e o crescimento do acesso à Internet na profunda mudança da organização da sociedade e da economia vivenciadas na contemporaneidade. Nesse contexto, a educação é entendida como espaço dos processos de construção de uma sociedade baseada na informação, no conhecimento e no aprendizado. Uma visão da tecnologia mais voltada à educação, segundo a autora [5] onde particularmente no Brasil, na década de 1970 e início da década de 1980, importa retomar o fato de que ela é marcada pela visão e crítica correspondente dos aparatos tecnológicos entendidos como recursos supostamente neutros a serem utilizados nas práticas didático-pedagógicas de sala de aula ou na organização do processo de trabalho pedagógico na escola. A autora menciona que no período que antecede a aprovação da LDB, houveram debates em defesa da utilização da tecnologia em atividades didático-pedagógicos, porém entendendo-se que essa tecnologia auxiliaria o professor de maneira supostamente “neutra”. Para essa autora a tecnologia no contexto escolar se apresenta de três maneiras [5]: - da tecnologia educacional revisitada no qual sugere a tecnologia como método ou recurso de ensino (ou de gestão escolar) e também como objeto de ensino; - do modelo de competência que surge do relacionamento entre educação e trabalho, mediado pelas questões da exigência de uma novo padrão de formação profissional em frente às “novas” tecnologias; - do mito da tecnologia que crê no uso da tecnologia como garantia de melhoria no ensino e aprendizado e desenvolvimento do aluno. Todas essas hipóteses da autora são importantes para pensarmos a integração da tecnologia na educação, porém cada um dos itens mencionados acima nos traz o contraponto como da tecnologia revistada que traz a tecnologia como transferência de conhecimento, não há a preocupação com o entendimento sócio histórico desse aparato ou seja do contexto em que está sendo inserida. Quanto ao modelo de competência está sendo reducionista e atendendo somente aos interesses profissionais e por fim o mito da tecnologia no qual é um ponto é problemático, sobretudo quando se ignora também que os novos aparatos tecnológicos informacionais não são destituídos de cultura, de linguagem, de re-conceptualizações do espaço e do tempo, e que imprimem as características próprias de sua lógica, por exemplo, nos conteúdos de ensino com os quais lidam. Havendo um entendimento crítico da tecnologia em sala de aula, onde ela (tecnologia) não é fator absoluto do sucesso ou insucesso do aluno ou do professor em sala de aula, podemos assim verificar em quais pontos de competência os alunos ou professores estão mais focados no processo de aprendizagem. Para isso estudamos os tipos de letramento definidos por Mark Warschauer (2006) no qual ele caracteriza como letrados os sujeitos que apresentam algumas características perante a tecnologia. Dentre essas definições de letramento podemos verificar, portanto, onde esses sujeitos poderão ser incluídos digitalmente. Warschauer define como: - Letrado digitalmente (por meio de computador) o sujeito que domina comandos simples no computador como ligar e desligar o computador. Salvar arquivo, criar uma pasta. - Letrado Informacional aquele que executa ações de localizar, selecionar, acessar e organizar e usar informações afim de gerar conhecimento, visando tomada de decisão e à resolução de problemas. - Letrado em Multimídia: que consegue identificar representações informações iconográfica ou multimodal. - Letrado Comunicacional: O sujeito tem habilidade de se comunicar efetivamente por meio de mídias. Saber regras de comportamento, dominar linguagem apropriada e ter interação com ferramentas comunicacionais síncronas e assíncronas.

3. Realidade brasileira: letramentos desencontrados

Aplicado em 2013 um questionário em 12 escolas de uma das cidades mais prósperas economicamente situada na serra do estado do Rio Grande do Sul afim de verificar histórico de acesso e estrutura dos laboratórios [6]. O questionário além de verificar locais de acesso à informação e tecnologias, também perguntava aos alunos quais seus conhecimentos acerca da utilização e prática com programas educacionais. Dentre as 12 escolas, as 12 apresentavam laboratório de informática e somente 2 não contavam com acesso à Internet. Tendo como perspectiva de que a posse de um equipamento de informática faz parte do acesso à TIC porém não constitui em si um acesso completo sendo necessário também o acesso à internet, de modo socialmente válido, e também entendimento para utilizar o computador [3]. O questionário contou com 50 perguntas direcionadas ao contexto de letramento ao que o aluno está imerso [6]. Nesse artigo separamos algumas perguntas no contexto do modelo criado por Warschauer e sua definição de letramento. - Letrado digitalmente (por meio de computador) foram agrupadas 24 perguntas contendo questões como: 1. Ligar e desligar o computador 2. Usar o mouse com facilidade 3. Criar, copiar, colar, mover e excluir uma pasta 4. Conectar-se à internet 5. Conectar um pen drive e manipular um arquivo (abrir, copiar, deletar) 6. Configurar uma página para impressão e imprimir arquivos. 7. Gravar um cd/dvd 8. Criar e-mail em sites gratuitos 9. Enviar, encaminhar um e-mail e anexar um dado ou arquivo a ele. 10. Limpar, excluir os arquivos temporários da internet 11. Usar sites na internet de comparação de preços 12. Conectar periféricos e instalar driver (impressora ou outro hardware) 13. Ativar o firewall 14. Atualizar o sistema operacional 15. Alterar configurações de áudio e vídeo 16. Compactar e descompactar arquivos 17. Usar um arquivo em pdf 18. Fazer ligações telefônicas através da internet 19. Fazer uma apresentação em editores de apresentação 20. Formatar celular do software de planilhas (cor da borda, cor de fundo, mesclar células...) 21. Instalar antivírus, checar se o sistema está livre de vírus e baixar atualizações 22. Fazer download de qualquer tipo de informação 23. Instalar um programa 24. Desfragmentar disco 25. Instalar spyware, checar se o sistema está livre de spyware

- Letrado Informacional contando com 14 perguntas respondidas no questionário. 1. Digitar textos em software de editores de texto, (Word, Broffice, wordpad) 2. Usar correção ortográfica 3. Usar sites de busca de informações 4. Usar a planilha eletrônica 5. Usar o Windows Explorer 6. Salvar uma página na internet 7. Formatar textos dos software editores (cor, negrito, sublinado, parágrafo) 8. Usar a opção de busca avançada em sites de pesquisa 9. Criar gráficos em planilha eletrônica (ex. Excel, broffice Calc) 10. Usar sites na internet de comparação de preços 11. Fazer uma apresentação em editores de apresentação 12. Usar sies com serviço de localização (localizar rua, cidade em um mapa) 13. Criar uma página na internet através de editor de pagina 14. Escrever um programa de computador usando linguagem de programação

- Letrado em Multimídia 4 perguntas 1. Usar programas de edição de som 2. Manipular fotos em um programa de edição de imagens 3. Usar programas de edição de multimídia 4. Baixar e usar codec

- Letrado Comunicacional: 8 perguntas 1. Conhecer alguma rede social 2. Participar de bate-papo online 3. Participar de redes sociais 4. Criar comunidades, fóruns, enquetes nas redes sociais 5. Criar um Blog ou Fotolog 6. Criar Wiki, PBWorks (ambientes de escrita coletiva) 7. Usar RSS 8. Utilizar a informática para se comunicar e colaborar com seus colegas, professores e comunidade

Uma recente pesquisa feita em 2014 indica que o Facebook (exemplo de rede social) se tornou a principal fonte de notícias para uma fatia assustadora do público: 674. CONCLUSÕES DA PESQUISA Da mesma forma, se acreditarmos que conhecimento é algo que é armazenado, seja na biblioteca ou no cérebro [8], então teria sentido compactá-lo e apresentá-lo de modo sucinto e articulado aos estudantes. Porém, se conhecimento é visto como surgindo de uma participação ativa no aparato de nossa vida cotidiana e de trabalho, então teríamos que ampliar o formato convencional da sala de aula e, realmente, interpretar o local de trabalho como lugar que enseja o ato de aprender. Segundo [9] as relações sociais são consideradas como fundantes não só nos primeiros anos de vida como também ao longo de toda a vida, mantendo-se continuamente como arena e motor do processo de desenvolvimento. Dessa forma, entende-se que, desde o início da vida, as relações são construídas a partir das “inter-ações”, isto é, de ações partilhadas e interdependentes. Essas ações se estabelecem por meio de processos dialógicos, nos quais cada pessoa tem seu fluxo de comportamentos continuamente delimitado, recortado e interpretado pelo (s) outro (s) e por si próprio, através da coordenação de papéis ou posições dento de contextos específicos. Com a competição e a mudança cada vez mais aceleradas, as demandas acerca das responsabilidades gerenciais crescem e este investimento em educação tende a aumentar, à medida que as organizações passarem a enxergar nas experiências de desenvolvimento em sala de aula uma alternativa de desenvolvimento das competências dos gestores. As ferramentas de letramento assim como a dialética de Vygotsky se incorporam à atividade humana de maneira que as alteram e são por elas alteradas. As transformações sociais, econômicas e tecnológicas estão outra vez associadas para provocar mudanças nas práticas do letramento, sendo essas tanto físico como livros, papéis e escrita como via tecnologia com computadores, dispositivos móveis e tablets.

REFERENCES [1] RIBEIRO, Ana Elisa. Letramento digital: um tema em generos efemeros. Revista da ABRALIN, v.8,n.1, p.15-38, jan./jun.2009. [2] SOARES, Magda. Letramento e Alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira da Educação, 2003. [3] WARSCHAUER, Mark. Tecnologia e inclusão social: A exclusão digital em debate. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2006. [4] CETIC.br – Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação. Acesso em maio 2015. [5] OLIVEIRA, Maria Rita Neto Sales. Do mito da tecnologia ao paradigma tecnológico; a mediação tecnológica nas práticas didático-pedagógicas. Revista Brasileira de Educação, n.18, p.101-107, set./dez.2001. [6] Pesquisa CNPq. [7] COSTA, Antonio Luiz M.C.. O golpe do Facebook. Carta Capital. Acessado em: 12 de maio de 2015. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/revista/848/o-golpe-do-facebook-2000.html. [8] Wenger, E. (1998). Communities of Practice: learning, meaning and identity. [9] Rossetti-Ferreira, Maria Clotilde; Carvalho, Ana Maria (orgs.). Rede de significações e o estudo do desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artes Médicas, 2003. [10]